segunda-feira, 28 de maio de 2012


Sexualidade das pessoas com deficiênciaCaro leitor,
O texto abaixo foi  extraído da Revista Reação, edição nº 84 e foi escrito pelo psicólogo e sexólogo Fabiano Puhlmann di Girolamo.
Viver a sexualidade é uma necessidade de todos, é como comer, dormir… quem tem dificuldades na sexualidade, tem também nos relacionamentos, no lazer, na vida. É preciso não dificultar o que é tão simples, o amor está na lei da vida, todos vivenciamos o amor em diferentes níveis. As barreiras somente existem quando não acreditamos em nosso potencial, amar é um ato corajoso de abertura, é arriscar, desejar alguém é experimentar sentimentos e sensações parcialmente controláveis.
“A Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada pelo governo brasileiro em 2008, reitera a necessidade de que os Estados tomem medidas para assegurar o acesso de pessoas com deficiência a serviços de saúde, inclusive na área de saúde sexual e reprodutiva e de programas de saúde pública destinados à população em geral. Constitui ação prioritária do Ministério da Saúde o fortalecimento da Política dos Direitos Sexuais e Reprodutivos, que vem sendo implementada através de ações intersetoriais e interministeriais. A Política Nacional de Saúde para Pessoas com Deficiência estabelece em suas diretrizes que ações voltadas para a saúde sexual e reprodutiva são elementos de atenção integral à saúde das pessoas com deficiência”.

Sexo e lesão medular. E agora?

Sexualidade e deficiência física
Desfazendo mitos para amenizar o preconceito sobre a sexualidade da pessoa com deficiência
Para garantir a saúde sexual e reprodutiva de pessoas com deficiência é preciso incluir a Educação Sexual como matéria obrigatória nos Centros de Saúde e Educação abertos para este público. Um bom programa de educação sexual deve seguir os seguintes princípios:
  • Toda pessoa tem direito a expressão sexual e responsável;
  • O ajustamento sexual é facilitado pela maior comunicação sexual;
  • A inclusão afetivo sexual é um dos aspectos essenciais da saúde plena;
  • A expressão sexual é um processo dinâmico, que sofre alterações de acordo com as necessidades físicas, as experiências e o meio social;
  • A aceitação sexual é secundária à autoaceitação sexual;
  • A sexualidade somente pode ser expressa, reprimida ou suprimida.
Os programas de educação sexual de pessoas com deficiência devem se preocupar prioritariamente com a acessibilidade dos materiais de apoio: vídeos, revistas e sites educativos, eróticos e pornográficos. Quanto ao conteúdo didático, além de abordar temas tradicionais da sexualidade, tais como: anatomia e fisiologia sexual masculina e feminina; Fases do ato sexual; Concepção, Gravidez e parto; Métodos de prevenção de DSTs; Papéis sexuais; Orientação sexual; Masturbação e Erotismo; Desvios Sexuais; Tratamentos de disfunções sexuais; Acessórios e recursos sexuais.
Deve também abordar temas relacionados às especificidades das diferentes deficiências como: Possíveis repercussões da deficiência na função sexual; Categorias de acessibilidade: arquitetônica, do mobiliário, do material, de comunicação e atitudinal no lazer sexual adulto; Apoios à comunicação, à movimentação e ao aprendizado de limites sociais no caso específico da deficiência intelectual.
Dentro da especificidade de cada deficiência existem algumas atitudes essenciais que devemos implementar quando vamos promover a inclusão afetiva da pessoa com deficiência. Nas DEFICIÊNCIAS FÍSICAS devemos estar atentos a acessibilidade arquitetônica e de mobiliário do lazer sexual adulto, à informação sobre tratamentos e medicações para disfunções sexuais para as deficiências físicas que tenham alterações vasculares e neurológicas.
Na DEFICIÊNCIA AUDITIVA, a Educação e terapia sexual deve ser realizada em LIBRAS, seja através da formação do profissional de educação e saúde nesta segunda língua brasileira, seja na contratação de intérpretes de LIBRAS e, neste caso, é também recomendada a formação dos intérpretes em educação sexual. Para implementar a comunicação sobre os inúmeros detalhes da vivência sexual e afetiva é necessária a criação e divulgação de sinais sobre sexualidade em LIBRAS. A pessoa com deficiência auditiva precisa receber informação atualizada sobre sexualidade.
A pessoa com DEFICIÊNCIA VISUAL, deve ser estimulada a desenvolver suas habilidades perceptivas (olfato, paladar, tato, audição, propriocepção) a serviço da vivencia afetivo sexual. Necessitam de informação impressa em Braile ou em formato digital (usuários de sintetizadores de voz – Jaws, Virtual Vision, Dos-Vox) sobre sexualidade. Edição de Áudio livros sobre educação sexual e sobre contos eróticos.
A pessoa com DEFICIÊNCIA INTELECTUAL necessita que os pais, os educadores e os terapeutas sexuais utilizem mediações pedagógicas para educação sexual, indiquem acessórios e recursos sexuais para masturbação daqueles que não conseguem ter relacionamentos. E principalmente o fomento de uma rede de apoios para o relacionamento afetivo sexual.
O objetivo final da inclusão do tema sexualidade nas resoluções da ONU 2006 é o aumento da autoestima da pessoa com deficiência quanto a seu potencial, para a vivência plena da sexualidade. A meta a ser atingida é que a pessoa com deficiência valorize sua própria identidade e diferença e que a sociedade como um todo contribua em ações efetivas para a equiparação de oportunidades na paquera, sedução e manutenção de relacionamentos sexuais e reprodutivos desta população.

cadeirante
O texto abaixo foi escrito por Leticia Oliveira.
Ser cadeirante é...
Ser cadeirante é ter o poder de emudecer as pessoas quando você passa…
Ser cadeirante é não conseguir passar despercebido, mesmo quando você quer sumir! E ser completamente ignorado quando existe um andante ao seu lado. E isso não faz sentido, as pernas e os braços podem não estar funcionando bem, mas o resto está!
Ser cadeirante é amar elevadores e rampas e detestar escadas… Tapetes? Só se forem voadores, por favor! Ser cadeirante é andar de ônibus e se sentir como um “Power Ranger” a diferença é que você chega ao ponto e diz: “é hora de MOFAR”.
Ser cadeirante é ter alguém falando com você como se você fosse criança, mesmo que você já tenha mais de duas décadas.
Ser cadeirante é despertar uma cordialidade súbita e estabanada em algumas pessoas. É engraçado, mas a gente não ri, porque é bom saber que ao menos existem pessoas tentando nos tratar como iguais e uma hora eles aprendem!
Ser cadeirante é conquistar o grande amor da sua vida e deixar as pessoas impressionadas… E depois ficar impressionado por não entender o porquê do espanto.
Ser cadeirante é ter uma veia cômica exacerbada. É fato, só com muito bom humor pra tocar a vida, as rodas e o povo sem noção que aparece no caminho.
Ser cadeirante e ficar grávida é ter a certeza de ouvir: “Como isso aconteceu?” Foi a cegonha, eu não tenho dúvidas! Os pés de repolho não são acessíveis! Ser cadeirante é ter repelente a falsidade. Amigos falsos e cadeiras são como objetos de mesma polaridade se repelem automaticamente.
Ser cadeirante é ser empurrado por ai mesmo quando você queria ficar parado. É saber como se sentem os carrinhos de supermercado! Ser cadeirante é encarar o absurdo de gente sem noção que acha que porque já estamos sentados podemos esperar, mesmo!
Ser cadeirante é uma vez na vida desejar furar os quatro pneus e o step de quem desrespeita as vagas preferenciais.
Ser cadeirante é se sentir uma ilha na sessão de cinema… Porque os espaços reservados geralmente são um tablado ou na turma do gargarejo e com uma distancia mais que segura pra que você não entre em contato com os outros andantes, mesmo que um deles seja seu cônjuge!
Ser cadeirante é a certeza de conhecer todos os cantinhos. Porque Deus do céu, todo mundo quer arrumar um cantinho para nós?
Ser cadeirante é ter que comprar roupas no “olhômetro” porque na maioria das lojas as cadeiras não entram nos provadores Ser cadeirante é viver e conviver com o fantasma das infecções urinárias. E desconfio seriamente que a falta de banheiros adaptados contribua para isso.
Ser cadeirante é se sentir o próprio guarda volumes ambulante em passeios pelo shopping Ser cadeirante é curtir handbike, surf, basquete e outras coisas que deixam os andantes sedentários morrendo de inveja. Ser cadeirante é dançar maravilhosamente, com entusiasmo e colocar alguns “pés-de- valsa” no bolso…
Ser cadeirante é ter um colinho sempre a postos para a pessoa amada… E isso é uma grannndeeee vantagem! Ser cadeirante (e mulher) é encarar o desafio de adaptar a moda pra conseguir ficar confortável além de mais bonita.
Ser cadeirante é se virar nos trinta pra não sobrar mês no fim do dinheiro, porque a conta básica de tudo que um cadeirante precisa… Ai… Ai… Ai… Essa merece ser chamada de Dolorosa.
Ser cadeirante é deixar um montão de médicos com cara de: “e agora o que eu faço” quando você entra pela porta do consultório… Algumas vezes é impossível entrar, a cadeira trava na porta…
Ser cadeirante é olhar um corrimão ou um canteiro no meio de uma rampa, ou se deparar com rampas que acabam em um degrau de escada e se perguntar: Onde estudou a criatura que projetou isso? Será mesmo que estudou?
Ser cadeirante é ter vontade de grudar alguns políticos em uma cadeira por um dia e fazer com que eles possam testar os lugares que enchem a boca pra chamar de acessíveis…
Ser cadeirante é ir à praia mesmo sabendo que cadeiras + areia + maresia não são uma boa combinação! Ser cadeirante é sentir ao menos uma vez na vida vontade de sentar no chão e jogar a cadeira na cabeça de outro ser humano.
Leticia Oliveira
leticia-oli@hotmail.com